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Bioenergia-espanol Archive for January 2000
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[RB] futuro da siderurgia a carvao vegetal



http://www.estaminas.com.br/ecologico/122416.htm
Title: Estado de Minas
Estado de Minas
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A siderurgia a carvão vegetal, do trabalho escravo e infantil no Brasil à chapa de aço e estofamentos produzidos de forma ecologicamente incorreta para a Volkswagem na Alemanha

Os carvoeiros (e cínicos) que somos todos nós

Hiram Firmino

Ao promover o lançamento do projeto ``Os Carvoeiros'', composto de um livro de fotografias e um filme-documentário que abordam o trabalho escravagista e a exploração infantil nas carvoarias brasileiras, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD-MG) acabou promovendo, no início deste mês, em Belo Horizonte, um inflamável debate de repercussão incalculável.

Inspirado no ensaio homônimo do fotógrafo Marcos Prado, sobre o perverso ciclo do carvão vegetal que praticamente extinguiu a Mata Atlântica em Minas - e hoje destrói o Cerrado do Centro-Oeste do Brasil e já segue, com a mesma ferocidade, em direção à Amazônia, última floresta tropical do planeta -, o filme não deixou pedra sobre pedra nesta questão ambiental.

Com 50 minutos de duração, o documentário produzido por José Padilha e dirigido pelo inglês Nigel Noble exibe depoimentos e imagens reais que escancaram as condições sub-humanas a que são submetidos os carvoeiros e seus filhos, sem qualquer dignidade ou futuro, principalmente durante o enchimento do forno e a carbonização da madeira. O documentário será agora exibido mundialmente, com pré-estréia para as ONGs internacionais, instituições financeiras e homens de decisão do Banco Mundial, em Washington, nos Estados Unidos. E pode significar um boicote do mercado global ao aço produzido com suor e sangue no Brasil.

O fato já fez o presidente Fernando Henrique Cardoso engasgar, deixando-o em posição delicada. Ele não soube se pronunciar sobre o assunto, levantado recentemente pelo presidente Bill Clinton, durante a última e polêmica reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Seattle, EUA, onde se esboçou o início de uma solução para este crime continuado contra a natureza e a humanidade, como mostra esta reportagem.

Trocando a alma por um prato de comida

O carvão vegetal é matéria-prima básica para a fabricação do ferro- gusa, dos ferros-liga e de alguns aços especiais, como os aços inoxidáveis. O carvão vegetal chega a atingir 70% dos custos de produção do ferro-gusa. Centenas de milhares de pessoas trabalham hoje, no Brasil, na cadeia produtiva ``floresta (nativa ou de eucalipto) - madeira - carvão - ferro-gusa - indústria automotiva''.

O ferro-gusa, produto de maior valor agregado, é exportado para o mercado japonês e norte-americano, gerando importantes divisas para o País. Tais divisas, segundo o engenheiro ambiental Cláudio Guerra, pesquisador da UFMG e consultor da UNICEF, ficam no topo da cadeia produtiva, onde as grandes siderúrgicas reivindicam maior flexibilidade das leis trabalhistas para competir com preços melhores no acirrado mercado internacional.

Entretanto, os resíduos da tecnologia suja de produção de ferro-gusa - a degradação ambiental e as condições desumanas de vida e de trabalho da mão-de-obra - ficam na base da produção: ``Ali é que vamos encontrar um exército de milhares de carvoeiros volantes, analfabetos e marginalizados. Sobrevivendo na imensidão do Cerrado, nas florestas artificiais de eucalipto ou na Amazônia, eles giram como peões, correndo atrás de uma frente de trabalho, trocando a alma por um prato de comida.''

Esquizofrenia sob o tapete

Segundo o estudioso da UFMG, os carvoeiros (que também somos nós, enquanto consumidores do produto final) estão dentro desta cadeia produtiva: ``Trata-se de uma esquizofrenia estrutural, que liga um adulto ignorante e explorado em Minas ao executivo da Bolsa de Nova York. Ou da Bolsa de Tókio ao menino escravo no Brasil, seja em Goiás ou na Amazônia, onde o setor, como um todo, chega a faturar US$ 4 bilhões/ano. É muito dinheiro!''

Todas estas atividades econômicas e interligadas são importantes por gerar empregos e impostos. Mas quem está no segmento mais sofrido, usando menos tecnologia - daí a destruição ilimitada da natureza, lembra Cláudio - são os carvoeiros. Historicamente, Minas é o maior produtor e o maior consumidor de carvão vegetal do Brasil, por ter aqui instalado o também maior pólo siderúrgico com este tipo de insumo energético do planeta.

``Mesmo assim, nós mineiros nos tornamos cínicos, à medida que fingimos não ver esta realidade. Nossa postura, infelizmente, continua sendo aquela de esconder este lixo sob o tapete. Mesmo em outros lugares onde a devastação prossegue para alimentar os fornos da siderurgia, como no Mato Grosso e na Amazônia, 90% dos homens carvoeiros são mineiros'', denuncia o engenheiro.

Esta é a ``herança maldita'' que o setor deixa para o País, na opinião de Guerra. Um sucesso, do ponto de vista econômico; uma tragédia, vista pelo lado social e ambiental. ``A menos que um dia possamos admitir, sem ressentimentos, mas com vontade de mudar, que foi a siderurgia a carvão vegetal que destruiu, sim, toda a Mata Atlântica, o verde e a biodiversidade natural que tínhamos - e não a pastagem e a agricultura, que vieram depois.''

FHC engasga

Companheiro de pesquisa sobre os carvoeiros no Mato Grosso do Sul, o geógrafo Alexandre Souza lembrou que o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso gaguejou recentemente, perante os jornalistas ingleses, quando perguntado sobre essa questão no Brasil.

``Pegou muito mal a desinformação e falta de posicionamento do nosso presidente. Ele não sabia que o estofamento que a Volkswagem utiliza em seus carros na Alemanha é feito de uma palha produzida com trabalho infantil na Bahia. O que vale dizer que todos nós também fazemos parte desta tragédia global. Quando compramos um carvão não-ecológico para o nosso churrasquinho com a família e os amigos, não somos nem a ponta do iceberg. Somos a própria lasca de gelo. E cabe a nós, enquanto consumidores, mudar essa situação''.

Feliz Ano Cínico

Foi o que mostrou, tocando fundo a ferida, o engenheiro florestal e diretor de fiscalização do IEF, Gumercino Souza. Como consumidor e carvoeiro indireto que todos nós somos, ele segue os passos de um homem ao cortar uma árvore que a natureza levou centenas de anos para fazer crescer, para transformá-la em carvão e ajudar a produzir o aço do nosso dia-a-dia.

``Diariamente, esse operário pega a pesada motossera, que lhe causa sérios problemas auditivos e de coluna, e vai à floresta, para continuar seu trabalho. Derruba a árvore e tira as suas cascas em um descascador, a exemplo do que o filme retrata, como se tivesse tirando a pele de um ser humano. O que era tronco e galhos é jogado em outra máquina, chamada picador. Em questão de minutos, o que era uma árvore linda e frondosa, de 100, 200, 500 anos, vira um monte de cavacos. Eles são jogados depois numa espécie de panela de pressão que os cozinha, cozinha, até virar uma polpa.

Aí vem um outro operário e vê que a polpa está um pouco escura, o que não será bem visto no mercado. Então, para clareá-la e seduzir o futuro consumidor, ele joga um coquetel mortal de enxofre, soda e dioxina. São produtos cancerígenos que, em plena floresta, longe de todos nós, escorrem para os rios, os peixes, legumes e verduras que a gente come depois nas cidades. Ou fazem nascer, principalmente a dioxina usada no clareamento industrial da celulose para fazer papel, crianças sem cérebro, como já aconteceu em Cubatão e Porto Alegre.

A polpa da árvore triturada, cujo processo começou na floresta, com o operário e sua motossera, fica então branca, vira papel de escrever e embrulhar coisas. Vira, também, o cartão de visita que a maioria de nós tem na pasta, no bolso do paletó. O cartão, enfim, que também faz parte da mesma cadeia produtiva. E que nos torna igualmente cínicos e santos, na medida em que ainda temos a coragem de escrever Feliz Natal e Próspero Ano Novo nele e enviar para alguém que a gente gosta.''

Depoimentos Predadora

``A produção de carvão vegetal vem se revelando uma das atividades econômicas mais predadoras de nossos recursos naturais, por utilizar tecnologia atrasada, impor condições desumanas de vida e trabalho e administrar nossas florestas, até então baratas e abundantes, de uma forma inconseqüente. Além de burlar, sistematicamente, a legislação tributária, ambiental e trabalhista.''

CLAUDIO GUERRA, engenheiro ambiental e consultor da Unicef

Democrática

``O mundo real nos mostra a fraqueza e a necessidade de mudar nossas institituições frente aos problemas ambientais. Na questão ambiental - e esta é a universalidade e democracia da ecologia - ninguém fica no meio ou em cima do muro perante a lei maior da natureza. Ou todos nós, empresas, governos e cidadãos seremos vencedores ou todos seremos vencidos.''

TILDEM SANTIAGO, secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável

Esperança

``Como cidadão e brasileiro, o filme me causou frustração, por mostrar tanta exploração da natureza e vidas miseráveis. Nós falhamos, sim, como sociedade. Mas faltou um pedaço, o pedaço sobre o que está sendo feito para mudar essa realidade. Faltou mostrar o lado da transformação, das empresas sérias e das novas tecnologias. Não temos o poder divino de separar os maus empresários e maus consumidores. A sociedade organizada é que vai extirpar este tipo de empresário que explora a natureza.

As empresas e consumidores que estão tentando mudar não são cínicos. Quando, ao fazer seu churrasco, um cidadão opta por comprar um carvão com selo de procedência ambiental, ou seja, produzido de forma ecologicamente correta, ele está fazendo a opção de não ser cínico. Esta é uma esperança. E ele também é real.''

MARCO ANTÔNIO, presidente da Abracave

Humilhação

``As siderúrgicas não são totalmente vilãs nessa história. Ninguém é totalmente mau nem totalmente bom. Os carvoeiros dizem o tempo todo que não têm dinheiro para comer. Quem dá emprego a essas pessoas? São as mesmas siderúrgicas que dão trabalho na indústria automotiva. Este mesmo filme é patrocinado pela Wolkswagem. Ao contrário dos produtores de aço, ela sabe que daqui há um mês será votada uma lei, nos EUA, proibindo toda e qualquer importação de produtos que envolvam o trabalho infantil em seu país de origem.

Não podemos mais fingir que isso não existe aqui. A hora, pois, é de nos agrupar ante a pressão e a humilhação externas, que vão crescer, mais ainda, contra o aço brasileiro após a exibição do filme lá fora. Mesmo que custe mais caro, temos de saber fazer carvão ecologicamente sustentável, sem sujeitar o trabalhador, pais e filhos a uma situação de miséria. Caso contrário, o Brasil apenas continuará exportando a miséria daqui para a China, para a Rússia...''

JOSÉ PADILHA, produtor

Tragédia

``A realidade dos carvoeiros é muito pior que a das penitenciárias. Eu mesma fui testemunha, no Norte de Minas, de um presente incomum que uma criança carvoeira pediu a seu pai, no dia de seu aniversário: poder tomar um banho.''

Maria Inês, consultora da Assembléia Legislativa em duas CPIs sobre trabalho escravo e infantil

Solução

``Nenhum cidadão pode concordar com essa situação. Muito menos generalizar a sua responsabilidade. Aliás, nas regiões onde existem reflorestamento feito por empresas sérias não existem condições desumanas de trabalho. Pelo contrário, já há seis anos que o setor em Minas vem honrando um termo de ajuste de conduta assinado com o Ministério do Trabalho. E a alternativa de solução que o Sindifer está trabalhando, em parceria com o Governo do Estado, para resolver este problema é um programa de reflorestamento da ordem de 525 mil novos hectares, ao longo de sete anos. Isto significa dar sustentabilidade ao setor, diminuir a pressão sobre as florestas nativas e acabar com a miséria.''

Luiz Eduardo Furiati, secretário-executivo do Sindifer

Contraponto

``Pior que o carvão vegetal é o coque, o carvão mineral que vem de países como o Canadá e a China para provocar chuva ácida aqui. A mesma chuva ácida que já destruiu e condenou milhares de florestas da Europa.''

Gumercino Souza, diretor de fiscalização do IEF

 

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